- Cinco indicadores ajudam a decidir quando avaliar a gestão anestésica externa: cancelamentos, escalas descobertas, rotatividade, segurança e atrito entre equipes.
- Não há meta universal. A referência é o histórico do próprio hospital e a tendência dos últimos 6 a 12 meses.
- Se os números estão sob controle e a equipe é estável, não há motivo para mudar de modelo.
Em 2013, um hospital público de São Paulo agendou 8.443 cirurgias eletivas. Foram canceladas 573, ou 6,79%.
O dado vem de um estudo publicado na Revista Brasileira de Enfermagem.
Em dois hospitais do Nordeste, a taxa chegou a 23,3% e a 42,7%.
Cancelamento é apenas um dos números que o centro cirúrgico produz. Quando vários indicadores pioram ao mesmo tempo, o problema deixa de ser de uma sala e passa a ser do modelo.
Este texto reúne cinco indicadores que ajudam a decidir quando vale avaliar a gestão anestésica externa. Eles são critérios práticos deste artigo, e não um padrão normativo.
Medir antes de decidir
Trocar o modelo de anestesia é uma decisão de longo prazo. Ela deve partir de números do próprio hospital, e não de impressões do último plantão difícil.
Não existe meta universal para nenhum dos cinco indicadores abaixo. A referência é o seu histórico e a tendência dos últimos 6 a 12 meses.
E o contrário vale: se os números estão sob controle e a equipe é estável, não há motivo para mudar.
O que é gestão anestésica externa
É o modelo em que um parceiro assume, por contrato, a organização do serviço de anestesia: escalas, protocolos, indicadores e reposição de equipe. Também é chamada de gestão anestésica estruturada.
O hospital não abre mão da responsabilidade. A Resolução CFM 2.174/2017 atribui ao diretor técnico a tarefa de assegurar as condições mínimas para uma anestesia segura.
O que muda é quem organiza a rotina e presta contas dela. Para entender o modelo completo, veja o guia de gestão anestésica externa em São Paulo.
1. Cancelamentos e atrasos na primeira cirurgia
Comece pelo que é mais fácil de contar: quantas cirurgias foram suspensas no dia e quantas vezes a primeira da manhã atrasou.
Nem toda suspensão é da anestesia. No estudo paulista, 48,33% dos cancelamentos foram clínicos e 46,40% não clínicos, como pedido do cirurgião, paciente não internado e falta de material.
Ainda assim, parte das causas clínicas, como infecção respiratória ou pressão descontrolada, pode ser identificada antes do dia da cirurgia. É para isso que existe a avaliação pré-anestésica.
Para a primeira cirurgia, a pergunta é simples: o paciente entrou na sala no horário combinado? A AORN, associação de enfermagem perioperatória dos EUA, não fixa meta única. Cita, porém, um serviço que passou de 40% a 50% para cerca de 80% de início pontual depois de acompanhar o indicador.
Sinal de alerta: taxa alta ou crescente, com causas ligadas a escala ou a avaliação pré-anestésica. Aprofunde em como reduzir cancelamentos cirúrgicos.
2. Escalas descobertas e plantonistas avulsos
Conte quantos plantões foram cobertos pela equipe fixa e quantos exigiram substituição de última hora.
A resolução do CFM proíbe que o mesmo anestesiologista conduza anestesias simultâneas em pacientes diferentes e determina que ele permaneça na sala durante a anestesia geral ou regional.
Na prática, uma falta não se resolve “esticando” quem está de plantão. Ou entra outro anestesiologista, ou a sala para.
Sinal de alerta: substituições frequentes, profissionais que mudam a cada semana e diretoria médica dedicando horas a fechar a escala. O tema é detalhado em escala médica hospitalar em SP.
3. Rotatividade e tempo gasto com escalas
Este é o custo que costuma ficar fora do relatório, porque aparece como horas de gente e não como linha de orçamento.
Registre quantos anestesiologistas entraram e saíram no ano, quantas negociações individuais foram necessárias e quantas horas a diretoria médica gastou com escala.
Uma equipe que muda o tempo todo também conhece menos os fluxos do hospital, as preferências dos cirurgiões e os protocolos da casa.
Sinal de alerta: saídas frequentes, equipe sem rotina comum e tempo de gestão consumido por reposição.
4. Segurança sem rotina de governança
Acompanhe a adesão à lista de verificação cirúrgica, as náuseas e vômitos no pós-operatório, os episódios de via aérea difícil e os eventos adversos notificados.
Há um exemplo clássico do valor de padronizar. Em oito hospitais de diferentes países, a implantação da lista de verificação da OMS foi acompanhada de queda das complicações de 11% para 7% e da mortalidade de 1,5% para 0,8%. O estudo comparou antes e depois, sem grupo controle.
Sinal de alerta: indicadores que não são medidos, não mudam ao longo do tempo ou não geram nenhuma ação. Veja também como a acreditação atua na jornada do paciente cirúrgico e quais são os indicadores essenciais de auditoria.
5. Atrito entre cirurgiões, anestesia e administração
É o mais difícil de medir e o mais fácil de sentir. Queixas sobre atraso, desencontro de informação e pauta que muda em cima da hora costumam aparecer antes de qualquer planilha.
Uma pesquisa curta com cirurgiões, a cada semestre, já dá uma tendência. Duas perguntas bastam: a pauta começa no horário e a equipe de anestesia conhece o caso?
Sinal de alerta: as mesmas queixas se repetem e ninguém tem o papel de resolvê-las. Falta um interlocutor único entre corpo clínico e administração.
O radar dos cinco sinais
Para cada indicador, escolha o que mais se parece com o seu hospital: 0 é sob controle e 3 é problema frequente.
Como levantar os números sem planilha complexa
A maioria dos hospitais já tem os dados. Eles só estão espalhados em sistemas e relatórios diferentes.
Peça ao centro cirúrgico a lista de cirurgias suspensas, com o motivo registrado. Peça à diretoria médica o histórico de escalas e substituições. Peça à qualidade os eventos adversos e a adesão à lista de verificação.
Junte tudo em uma folha por mês. Não precisa de gráfico sofisticado: seis a doze linhas já mostram se a curva sobe, desce ou fica parada.
Duas precauções evitam conclusões erradas. A primeira é separar cancelamento por causa clínica, por causa administrativa e por falta de recurso. A segunda é comparar o hospital com ele mesmo, e não com números de outras instituições, que têm porte e perfil diferentes.
Por fim, registre quem é o responsável por cada número. Indicador sem dono costuma deixar de ser medido em dois ou três meses.
Esse levantamento também serve em qualquer cenário. Se o hospital decidir manter a equipe atual, terá uma linha de base para acompanhar melhorias. Se decidir pedir propostas, terá o que exigir como meta.
Como usar o resultado
O radar não é um diagnóstico. Serve para organizar a conversa interna e decidir quais números levantar primeiro.
Se três ou mais sinais aparecem com frequência, vale pedir propostas de gestão externa. Se só um deles incomoda, talvez o ajuste seja interno.
Ao receber propostas, exija que elas tragam os mesmos indicadores como metas e relatórios periódicos. O passo a passo está em como contratar um serviço de anestesia.
A AMD Anestesia reúne mais de 50 anos de atuação, mais de 70 anestesiologistas e acreditação Qmentum Diamond desde 2019.
O modelo é de parceria de longo prazo, com protocolos, escala estruturada e indicadores compartilhados com a diretoria.
Perguntas frequentes
Na prática, sim: terceirização é o termo mais buscado para o mesmo modelo, em que um parceiro assume a organização do serviço por contrato. Preferimos “gestão anestésica externa” porque ela destaca o que importa, que é governança, protocolos e indicadores, e não apenas o fornecimento de profissionais.
Não. O diretor técnico continua responsável pelas condições mínimas de segurança, e o hospital define metas, relatórios e reuniões de acompanhamento no contrato.
Levantar de 6 a 12 meses dos cinco indicadores deste texto. Com os números na mesa, a discussão deixa de ser opinião e passa a ser decisão.
O próximo passo
Comece pelos números do seu hospital. Se o radar mostrar vários sinais, converse com um parceiro que trabalhe com metas claras e prestação de contas.
A AMD está à disposição para esse diálogo. Conheça a AMD Anestesia e fale com a nossa diretoria médica.
Fontes
- Estudo sobre cancelamento de cirurgias eletivas em hospital público brasileiro. Rev Bras Enferm, 2017. SciELO
- Avaliação dos fatores de cancelamento de cirurgias em hospitais do nordeste brasileiro. Rev SOBECC. SOBECC
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.174/2017. PDF
- AORN. How do you measure up? Outpatient Surgery Magazine, 2013. AORN
- Haynes AB et al. A surgical safety checklist to reduce morbidity and mortality in a global population. N Engl J Med, 2009 (números conferidos em resumo). MDedge



