Gestão hospitalar

Reduzir cancelamentos cirúrgicos: o papel da equipe anestésica

O que estudos brasileiros mostram, quem pode agir sobre cada causa e como acompanhar o indicador.

7 min de leitura Verificado por AMD Anestesia
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  • Em um estudo paulista, 46,40% dos cancelamentos tiveram causas não clínicas, ligadas a organização e comunicação.
  • A anestesia participa da prevenção por meio da avaliação pré-anestésica e da cobertura da sala, mas os estudos não a isolam como causa.
  • O primeiro passo é registrar bem o motivo de cada suspensão; cerca de metade dos motivos não clínicos do estudo não tinha justificativa clara.

Em um hospital de ensino do estado de São Paulo, 573 de 8.443 cirurgias eletivas agendadas em um ano foram canceladas. Quantas dessas suspensões poderiam ter sido evitadas?

A pergunta não tem resposta exata, mas os dados ajudam a pensar. Eles mostram que boa parte dos cancelamentos tem causas que a gestão pode tratar antes do dia da cirurgia.

Este artigo reúne o que estudos brasileiros apontam, o papel da anestesia nessa história e como o hospital pode acompanhar o indicador.

O que os estudos brasileiros mostram

O estudo desse hospital, publicado na Revista Brasileira de Enfermagem, registrou taxa de cancelamento de 6,79%. Das suspensões, 48,33% tiveram motivo clínico e 46,40%, motivo não clínico.

Outro estudo, da Revista SOBECC, analisou dois hospitais do Nordeste entre 2014 e 2015. As taxas foram de 23,3% em um hospital público-privado e de 42,7% em um hospital público. Segundo o resumo, as principais causas ligavam-se ao paciente e a aspectos administrativos.

A diferença entre 6,79% e 42,7% é grande demais para ser lida como ranking. Os serviços, as definições e os períodos são distintos, e cada hospital deve olhar principalmente para o próprio histórico.

As causas não clínicas mais frequentes

No estudo paulista, as cinco causas não clínicas mais frequentes foram estas, em percentual do total de cancelamentos:

Repare que quase nada nessa lista é clínico. Solicitação do cirurgião, paciente que não foi internado, falta de material e inclusão de urgências são temas de organização e comunicação.

Os próprios autores chamam atenção para outro ponto: cerca de metade dos cancelamentos não clínicos não tinha justificativa clara no registro. Isso limita a análise e mostra que registrar bem o motivo já é parte da solução.

Onde a anestesia entra

É importante ser preciso: os estudos citados não isolam a anestesia como causa. O que se pode dizer é que várias medidas de prevenção passam por ela.

A Resolução CFM 2.174/2017 prevê que, em cirurgias eletivas, a avaliação pré-anestésica ocorra antes do ato, para que as condições clínicas do paciente sejam conhecidas. Em termos práticos, a consulta pré-anestésica revisa histórico, medicamentos, alergias e exames, e orienta o jejum e o que manter ou suspender antes da cirurgia.

Isso reduz a chance de uma pendência clínica só aparecer na porta da sala, quando a cirurgia já está montada. O tema também aparece em como escolher um anestesista em SP, do ponto de vista do paciente.

Outro ponto é a cobertura. Sem profissional escalado, a sala não abre. O assunto está em escala médica hospitalar em SP.

Comunicação com o paciente: jejum, medicamentos e data

Parte dos cancelamentos nasce de um detalhe simples: o paciente não sabia o que fazer na véspera. Jejum errado, medicamento mantido quando deveria ser suspenso ou exame que ficou para depois podem adiar a cirurgia.

Orientações claras, em linguagem simples e entregues com antecedência, ajudam. Vale confirmar por telefone ou mensagem a data, o horário, o jejum e a lista de medicamentos, e deixar um canal aberto para dúvidas.

O hospital também pode padronizar um roteiro de orientação para os consultórios dos cirurgiões, de modo que todos os pacientes recebam o mesmo conteúdo. Isso reduz diferenças entre equipes e facilita a conferência no dia.

O custo de um cancelamento nem sempre é o que parece

É comum multiplicar os minutos de sala parada por um valor por minuto. A conta é tentadora, mas pode enganar.

Um editorial de 2010 sobre o custo do minuto de centro cirúrgico lembra que os valores citados são de cobrança, e não de custo real, e que a maior parte dos custos da sala é fixa. Assim, o custo de uma cirurgia cancelada tende a ser menor do que o valor por minuto sugere.

Isso não torna o cancelamento irrelevante. Há o paciente que jejuou e voltou para casa, o cirurgião que precisou remarcar, a equipe escalada sem procedimento e o leito ocupado. Só que o impacto financeiro deve ser calculado com os dados do próprio hospital, e não com um número genérico.

Nem todo cancelamento é falha

Suspender uma cirurgia porque o paciente apresenta uma condição que a torna arriscada é uma decisão de segurança. O objetivo da gestão não é zerar suspensões a qualquer custo, e sim reduzir as que poderiam ter sido evitadas com preparo e comunicação.

Por isso, o registro do motivo é tão importante. Ele permite distinguir a suspensão que protegeu o paciente daquela que expôs uma falha de processo.

Quem pode agir sobre cada causa

A tabela relaciona as causas do estudo a quem costuma poder agir e a uma medida possível. É uma leitura de gestão, e não uma conclusão do estudo.

Causa
Quem costuma agir
Medida possível
Mudança de conduta pedida pelo cirurgião
Cirurgião e coordenação da pauta
Revisar a indicação e a pauta na véspera
Paciente não internado
Admissão e equipe de agendamento
Confirmar comparecimento e orientações antes da data
Falta de material
Enfermagem, farmácia e suprimentos
Conferir materiais e equipamentos na véspera
Pendência clínica
Pré-anestesia e cirurgião
Consulta pré-anestésica com antecedência

Nenhuma coluna pertence a um setor só. Por isso o acompanhamento precisa ser compartilhado, como no comitê descrito em gestão de centro cirúrgico em SP.

Quanto o hospital pode ganhar? Faça a conta

No estudo paulista, os autores estimaram que, se cerca de 80% dos cancelamentos fossem evitáveis, a taxa poderia cair de 6,79% para 1,36%. Esse percentual é uma suposição dos autores, e não um resultado medido.

A ferramenta abaixo permite fazer a mesma conta com os números do seu hospital e com o percentual evitável que você considerar realista.

Interativo

Estimativa de cancelamentos evitáveis

O resultado é uma estimativa simples, sem custos e sem considerar a variação de cada mês. Serve para dar ordem de grandeza e para abrir a conversa sobre quais causas atacar primeiro.

Como acompanhar o indicador

O primeiro passo é registrar. Para cada suspensão, anotar a data, o motivo, o setor envolvido e se foi decidida no dia ou na véspera.

Depois, separar as causas: clínicas, administrativas, de materiais, de cobertura e de decisão do cirurgião ou do paciente. Com isso o hospital consegue ver quais pesam mais e discutir em reunião fixa.

Esse acompanhamento entra naturalmente nos indicadores de auditoria em centro cirúrgico. E, se o motivo registrado for vago, vale melhorar o formulário antes de tirar conclusões.

Na prática AMD

A AMD Anestesia tem mais de 50 anos de atuação, mais de 70 anestesiologistas e acreditação Qmentum Diamond desde 2019.

A avaliação pré-anestésica e o registro de motivos de suspensão fazem parte da conversa de indicadores com os hospitais parceiros. Conheça a medicina perioperatória da AMD.

Perguntas frequentes

O próximo passo

Comece pelo registro. Sem saber por que as cirurgias são suspensas, qualquer medida é palpite.

Se a diretoria quer conversar sobre como a anestesia pode participar desse acompanhamento, a AMD Anestesia está disponível para conversar.

Verificado por AMD AnestesiaConteúdo verificado pela AMD Anestesia. Informativo; não substitui avaliação clínica individual.

Fontes

  1. Cancellation of elective surgeries in a Brazilian public hospital: reasons and estimated reduction. Rev Bras Enferm, 2017. SciELO
  2. Araújo et al. Evaluation of cancellation factors of surgeries in northeast Brazilian hospitals. Rev SOBECC, 2019. Rev SOBECC
  3. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.174/2017. PDF · Rede D’Or São Luiz. Pré-anestesia. Rede D’Or
  4. Macario A. What does one minute of operating room time cost? J Clin Anesth, 2010. PDF
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