- Evento adverso é um dano causado pelo cuidado, e não pela doença. A OMS estima que cerca de 1 em cada 10 pacientes sofre algum dano na atenção à saúde, e mais da metade desses danos é evitável.
- A acreditação ajuda porque cria rotinas verificáveis em cada etapa da jornada do paciente: identificação, avaliação, checklist, notificação e aprendizado.
- A evidência é mais sólida sobre cultura de segurança e processos do que sobre queda direta de eventos. Por isso a diretoria deve cobrar dados, não apenas o selo.
Uma cirurgia termina bem, o paciente vai para casa e ninguém conta o que quase deu errado no caminho.
É nesse silêncio que moram os eventos adversos. Eles raramente aparecem em um único erro grave. Costumam nascer de pequenas falhas encadeadas: um dado que não passou de um plantão para outro, uma conferência que ficou para depois, um alerta que ninguém registrou.
A acreditação existe para interromper essa cadeia. Este texto mostra onde, ao longo da jornada do paciente cirúrgico, ela atua, e também o que a evidência diz e não diz sobre o seu efeito.
O que é um evento adverso e por que ele importa
Evento adverso é um incidente que causa dano ao paciente e decorre do cuidado prestado, não da doença de base.
Os números ajudam a dimensionar o problema. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 1 em cada 10 pacientes sofre dano durante a atenção à saúde. Mais de 50% desses danos são considerados evitáveis.
No Brasil, um estudo em três hospitais públicos de ensino do Rio de Janeiro, com dados de 2003, encontrou eventos adversos em 7,6% dos pacientes. Cerca de dois terços eram evitáveis.
Os dados são antigos e de um grupo específico de hospitais, mas seguem como referência nacional. O recado é o mesmo da OMS: a maior parte do problema é evitável.
Para a diretoria, isso tem três consequências diretas: segurança do paciente, reputação da instituição e custo de reinternações e litígios.
O que a acreditação muda no dia a dia
A acreditação não impede que um evento aconteça. Ela muda a probabilidade e a resposta, por quatro caminhos.
- Padrões escritos: protocolos com responsável, versão e data de revisão.
- Verificação externa: auditores independentes observam a prática, e não apenas os documentos.
- Indicadores: o hospital passa a medir o que antes era percepção.
- Aprendizado: eventos e quase-eventos são notificados, analisados e viram mudança de rotina.
Há ainda uma base legal. A RDC 36/2013, da Anvisa, obriga os serviços de saúde a constituir um Núcleo de Segurança do Paciente e a manter um plano de segurança com temas como identificação do paciente, segurança cirúrgica e medicamentos.
A norma também exige notificação mensal dos eventos adversos à vigilância sanitária e, nos casos que evoluem para óbito, em até 72 horas.
A acreditação parte desse piso legal e pede mais: provar que o hospital executa, mede e melhora, em ciclos periódicos. Se quiser comparar os dois principais programas, leia ONA ou Qmentum: qual acreditação faz mais sentido para o seu hospital.
A jornada do paciente cirúrgico, etapa por etapa
Na prática, a segurança se constrói em barreiras sucessivas. Cada uma cobre uma falha que a anterior pode deixar passar.
Percorra as cinco etapas abaixo para ver o risco típico, a barreira esperada em um hospital acreditado e a evidência que a diretoria pode pedir.
Percorra a jornada
Exemplos de práticas usuais em serviços acreditados. Cada acreditadora define os próprios requisitos.
O que a evidência mostra, e o que ela não mostra
Duas informações merecem destaque, porque mostram o alcance e o limite do tema.
A primeira é sobre processos. Em 2009, um estudo da OMS em 8 hospitais de 8 países testou a lista de verificação de cirurgia segura. Entre 7.688 pacientes, as complicações graves caíram de 11% para 7%, e a mortalidade após cirurgias de grande porte caiu de 1,5% para 0,8%. A comparação foi entre antes e depois da implantação.
A segunda é sobre cultura. Um estudo com cerca de 32 mil profissionais de 68 hospitais da Rede D’Or, coletado em 2022, comparou unidades acreditadas e não acreditadas. As acreditadas tiveram melhores resultados em comunicação aberta, frequência de relatos e percepção geral de segurança, com diferença de 3% a 4%.
Os próprios pesquisadores fazem a ressalva: a acreditação, sozinha, não basta para transformar a cultura. Na mesma pesquisa, só 43,2% das respostas foram positivas sobre reação não punitiva a erros, e 41,9% dos profissionais disseram não ter relatado nenhum evento em 12 meses.
Leitura honesta para a gestão:
- Há boa evidência de que práticas padronizadas, como o checklist cirúrgico, reduzem complicações.
- Há indícios de que a acreditação fortalece a cultura de segurança e a notificação.
- O estudo da Rede D’Or mede percepção de profissionais, e não a taxa de eventos, e seus autores são do instituto de pesquisa da própria rede.
- Selo sem rotina verificada não protege ninguém.
Cinco perguntas que a diretoria deve fazer
Para saber se a acreditação está funcionando de verdade, estas perguntas separam o que é prática do que é papel.
- Quantos eventos e quase-eventos foram notificados no último ano? Zero não é sinal de segurança. Costuma ser sinal de subnotificação.
- Que mudança concreta nasceu de uma notificação? Peça um exemplo com data, responsável e resultado.
- O checklist cirúrgico é observado ou apenas preenchido? A auditoria por observação direta mostra o que o formulário não mostra.
- Como o hospital reage quando alguém relata um erro? A resposta não punitiva é condição para que os relatos continuem.
- Os serviços críticos entregam os mesmos dados? Anestesia, UTI e centro cirúrgico precisam falar a língua dos indicadores.
Evento adverso. Incidente que atinge o paciente e causa dano.
Incidente sem dano. Chegou ao paciente, mas não causou prejuízo.
Quase-evento (near miss). Foi interceptado antes de atingir o paciente. É a informação mais barata para aprender, porque ensina sem que ninguém se machuque.
O papel do parceiro de anestesia
A anestesia atravessa quase toda a jornada cirúrgica: avaliação pré-anestésica, checklist, medicação, monitorização e recuperação.
Por isso, um grupo que já opera sob auditoria externa leva para o centro cirúrgico protocolos, indicadores e comitês que o hospital poderá mostrar a qualquer avaliador.
O modelo de gestão anestésica externa e a rotina de governança clínica no centro cirúrgico detalham como isso funciona.
Para ver como essa estrutura se reflete no ritmo das salas, leia Throughput no centro cirúrgico.
Perguntas frequentes
Hospital acreditado tem menos eventos adversos?
As evidências mostram que a acreditação fortalece processos e cultura de segurança, e que práticas padronizadas reduzem complicações. A queda direta de eventos depende da execução diária e deve ser acompanhada por indicadores do próprio hospital.
O que é um quase-evento?
É um incidente interceptado antes de atingir o paciente. Notificá-lo permite corrigir a falha sem que haja dano, por isso serviços maduros incentivam esse tipo de relato.
A notificação de eventos adversos é obrigatória?
Para serviços de saúde abrangidos pela RDC 36/2013, sim. A notificação ao sistema de vigilância sanitária é mensal, e os eventos com óbito devem ser notificados em até 72 horas.
O checklist cirúrgico realmente funciona?
No estudo da OMS com 8 hospitais, complicações graves caíram de 11% para 7% e a mortalidade pós-operatória de grande porte, de 1,5% para 0,8%. A comparação foi de antes e depois, e o efeito depende de o checklist ser de fato aplicado.
Há mais de 50 anos, a AMD Anestesia atua em São Paulo com equipe de mais de 70 anestesiologistas.
Desde 2019, é certificada no nível Diamond do Qmentum International, o mais alto do programa. Protocolos, indicadores e governança da AMD passam por auditoria externa de padrão internacional, e essa estrutura é levada aos hospitais parceiros.
Para a diretoria, isso significa uma anestesia que já fala a linguagem da acreditação, com rotinas e medições prontas para a apresentação de evidências.
O próximo passo
Eventos adversos não desaparecem com um selo. Eles diminuem quando o hospital mede, notifica, aprende e corrige, etapa por etapa.
A acreditação oferece a estrutura. A diretoria garante que ela seja vivida, perguntando pelos dados e escolhendo parceiros que aceitam ser auditados.
Quer entender como isso funciona na prática? Conheça a AMD Anestesia e a nossa página sobre a certificação Qmentum.
Fontes
- OMS. Patient safety, fact sheet (2023). who.int
- Mendes W. et al. Avaliação de eventos adversos cirúrgicos em hospitais do Rio de Janeiro. Rev Bras Epidemiol, 2012. scielosp.org
- Anvisa. Resolução RDC nº 36, de 25 de julho de 2013. texto da norma
- OPAS. Listado de acciones para cirugías seguras reducen en un tercio muertes y complicaciones (2009). paho.org
- Medicina S/A. Estudo aponta que acreditação hospitalar melhora a cultura de segurança do paciente. medicinasa.com.br
