- Sete indicadores formam um painel de auditoria do centro cirúrgico: pontualidade, giro, cancelamentos, recuperação, escalas, checklist e insumos.
- Medir toda semana permite corrigir antes do fechamento do mês, quando a perda já aconteceu.
- Comece por três indicadores, com um dono para cada um e uma reunião semanal curta.
O relatório de fechamento do mês chega quando o problema já tem semanas.
Sala ociosa na primeira hora, cirurgia cancelada no dia, insumo descartado sem uso. Cada episódio parece pequeno. Somados, eles aparecem no balanço como “baixa produtividade”, sem dizer onde estava a causa.
Auditar o centro cirúrgico é trocar essa leitura tardia por um painel curto, acompanhado toda semana. Este texto propõe sete indicadores para esse painel e mostra quem costuma ser o dono de cada um.
Por que medir durante o mês, e não só no fechamento
O tempo de sala é caro e fácil de perder. Um editorial de Alex Macario, de Stanford, reuniu estimativas americanas: uma pesquisa com 100 hospitais, de 2005, indicou cobrança média de US$ 62 por minuto de sala, com variação de US$ 22 a US$ 133.
São valores de tabela de hospitais dos EUA, sem honorários médicos, e não custos reais. O próprio autor faz essa ressalva.
O que se pode tirar daí é a ordem de grandeza: minutos perdidos repetidos ao longo do mês viram uma conta relevante em qualquer hospital.
Para a diretoria, a pergunta útil é outra. Quais números mostram a perda quando ela ainda dá tempo de ser corrigida?
Os sete indicadores a seguir cobrem as três perguntas de qualquer diretoria: a sala está sendo bem usada, o paciente está seguro e o gasto faz sentido? Cada um vem com uma definição simples, uma fonte e um cuidado de interpretação.
1. Pontualidade da primeira cirurgia
É a porcentagem de primeiras cirurgias do dia que começam no horário combinado. Um atraso na abertura empurra toda a pauta.
A AORN, associação americana de enfermagem perioperatória, trata o indicador como um dos de maior impacto na rotina do bloco. Em um exemplo publicado pela entidade, um serviço passou de 40% a 50% para cerca de 80% de início pontual depois de passar a acompanhar o número.
Para que o número seja confiável, o hospital precisa definir o que é “começar”: paciente na sala, anestesia iniciada ou incisão. Qualquer uma serve, desde que seja sempre a mesma.
2. Giro de sala
É o intervalo entre a saída de um paciente e a entrada do seguinte. A definição é do Perioperative Nursing Data Set, citado pela AORN.
A média importa menos do que a variação. Segundo a AORN, um giro previsível de 20 minutos é mais fácil de programar do que um que oscila entre 15 e 45.
Nesse intervalo trabalham juntas a limpeza, a enfermagem e a anestesia. Medir por etapa ajuda a achar o gargalo sem apontar culpados.
3. Cancelamentos no dia
Cirurgias suspensas divididas pelas agendadas, sempre com o motivo registrado: clínico, administrativo, falta de recurso ou decisão do paciente.
Em um hospital público paulista, 6,79% das cirurgias eletivas foram canceladas em 2013, e 46,40% das causas não eram clínicas. Sem classificar o motivo, a gestão não sabe se o problema está na triagem, na escala ou no material.
O tema tem artigo próprio: como reduzir cancelamentos cirúrgicos.
4. Tempo na recuperação pós-anestésica
É o tempo entre a chegada à SRPA e a alta para o quarto ou a casa. Quando ele se alonga sem motivo clínico, os leitos travam e a sala seguinte espera.
Esse indicador reflete a qualidade da anestesia e da analgesia, mas também a organização do fluxo. Convém separá-lo por tipo de cirurgia e de anestesia.
Não há um número único a perseguir. A meta deve ser definida pelo próprio hospital, a partir do histórico.
5. Cobertura de escalas
É a proporção de plantões cobertos pela equipe fixa, em relação aos que exigiram substituição ou profissional avulso.
Ele mostra se a rotina depende de improviso. Está detalhado em escala médica hospitalar em SP.
6. Adesão ao checklist de segurança
O checklist cirúrgico da OMS é o indicador mais conhecido de segurança. Em oito hospitais de países diferentes, sua implantação foi acompanhada de queda das complicações de 11% para 7% e da mortalidade de 1,5% para 0,8%.
Como o estudo comparou antes e depois, ele não prova causa. Mas indica que o instrumento merece ser medido com seriedade.
Uma sugestão prática: além de contar quantas cirurgias têm o formulário preenchido, observe por amostragem se o checklist é de fato conduzido em voz alta, com a equipe reunida.
7. Consumo e desperdício de insumos
É o consumo de medicamentos e materiais por procedimento, comparado à média da especialidade, mais a sobra descartada.
Um estudo em um hospital-escola sul-africano acompanhou 373 participantes e estimou desperdício médio de 29,7% dos medicamentos anestésicos, sendo 21,3% de rotina e 8,4% evitável. É um contexto diferente do brasileiro, mas serve como alerta de que o número existe e vale ser medido.
O objetivo não é cortar medicamento. É enxergar o descarte evitável sem tocar na segurança.
O painel dos sete indicadores
Escolha um indicador para ver como calcular, quem alimenta e o que observar.
Como a anestesia entra nesses números
A equipe de anestesia passa por todas as fases do caso e influencia vários indicadores: início da primeira cirurgia, giro, recuperação, cancelamentos por causa clínica, checklist e consumo de medicamentos.
Por isso, o contrato com o grupo de anestesia deveria prever acesso a esses dados, e não só a escala de plantões.
A AMD Anestesia tem mais de 50 anos de atuação, mais de 70 anestesiologistas e acreditação Qmentum Diamond desde 2019.
Nos hospitais parceiros, a equipe alimenta os indicadores da instituição e leva relatórios à diretoria médica. Veja como isso se conecta à gestão do centro cirúrgico em São Paulo.
Cinco erros comuns ao montar o painel
Quem começa a auditar costuma tropeçar nos mesmos pontos. Conhecê-los poupa meses.
Medir sem definir. Se cada setor entende “atraso” de um jeito, o número vira discussão e não decisão.
Olhar só a média. Dois giros de sala com a mesma média podem ter rotinas muito diferentes. Acompanhe também a variação.
Usar o painel para punir. Quando o número ruim gera advertência, o registro passa a ser maquiado. Perde-se justamente o dado que importava.
Esquecer o motivo. Um atraso sem causa registrada não ensina nada. O campo “por quê” vale mais do que o percentual.
Comparar hospitais diferentes. Porte, perfil de cirurgias e retaguarda mudam muito. A comparação mais justa é a do hospital com ele mesmo ao longo do tempo.
Como começar em 30 dias
- Escolha três indicadores para começar, em vez de sete. Pontualidade, cancelamentos e giro costumam ser os mais fáceis de levantar.
- Defina uma fonte única de dados para cada um e quem a mantém.
- Reúna a equipe uma vez por semana por 20 minutos, para olhar os números e escolher uma ação.
- Depois de três meses, acrescente os demais e revise as metas.
A auditoria funciona melhor quando não é punitiva. Número ruim deve gerar pergunta sobre o processo, e não busca por culpado.
Perguntas frequentes
Poucos e bem feitos. Sete é um bom teto para um painel semanal. Mais do que isso tende a gerar relatório que ninguém lê.
Não. As metas dependem do porte, do perfil de cirurgias e do histórico do hospital. O ponto de partida é a linha de base dos últimos meses.
Idealmente, uma pessoa da gestão do centro cirúrgico, com apoio da diretoria médica. Cada indicador tem um dono operacional, mas o painel precisa de um coordenador.
O próximo passo
Comece por três indicadores e uma reunião semanal curta. O resto vem com o hábito.
Se o hospital quer incluir a anestesia nesse acompanhamento, a AMD pode conversar. Conheça os serviços de gestão de serviços de anestesiologia e a AMD Anestesia.
Fontes
- Macario A. What does one minute of operating room time cost? J Clin Anesth, 2010. PDF
- AORN Syntegrity. The 6 most important operating room efficiency metrics. AORN
- AORN. How do you measure up? Outpatient Surgery Magazine, 2013. AORN
- Cancelamento de cirurgias eletivas em hospital público brasileiro. Rev Bras Enferm, 2017. SciELO
- Haynes AB et al. A surgical safety checklist to reduce morbidity and mortality in a global population. N Engl J Med, 2009 (números conferidos em resumo). MDedge
- Majara P, Leballo G. Wastage of commonly used anaesthetic agents in the operating theatres of a South African teaching hospital. S Afr Med J, 2025. SAMJ



