Gestão do centro cirúrgico

Throughput no centro cirúrgico: como ganhar capacidade sem abrir novas salas

Onde o tempo se perde, quais indicadores acompanhar e um simulador para calcular o efeito de pequenas melhorias.

8 min de leituraVerificado por AMD Anestesia
Em 30 segundos
  • Throughput é quantos pacientes passam pelas salas, com segurança e no horário, em um período. É diferente de ocupação: sala ocupada não é, necessariamente, sala produtiva.
  • O tempo se perde em cinco pontos: início da primeira cirurgia, troca de sala, cancelamentos, agenda mal dimensionada e recuperação lotada.
  • Poucos minutos poupados por cirurgia somam horas por mês. O simulador do artigo mostra a conta com os números do seu hospital.

São 7h40. A primeira sala do dia continua vazia, e a agenda tem cirurgias demais para o tempo que sobra.

Ninguém errou de propósito. O paciente chegou depois, um exame não estava no prontuário, a sala esperava um material.

No fim do dia, o hospital contará as cirurgias realizadas. Quase nunca contará o tempo que escorreu pelo caminho.

É esse tempo que o conceito de throughput ajuda a enxergar. Este texto explica o conceito, mostra onde o tempo se perde, quais indicadores acompanhar e traz um simulador para a diretoria calcular o efeito de pequenas melhorias.

O que é throughput no centro cirúrgico

Throughput é o volume que passa por um sistema em determinado período. No centro cirúrgico, é quantos pacientes são operados com segurança e dentro do horário planejado.

Não é o mesmo que ocupação. Uma sala pode parecer ocupada o dia inteiro e produzir pouco, se parte do tempo é espera, atraso ou troca lenta.

Para a diretoria, a pergunta útil é esta: quanto da capacidade que o hospital já tem vira cirurgia realizada?

Responder a ela costuma ser mais barato do que abrir uma nova sala.

Onde o tempo se perde

Na maior parte dos centros cirúrgicos, as perdas aparecem em cinco pontos.

  • Início da primeira cirurgia: o atraso da manhã empurra todos os casos seguintes.
  • Troca de sala: o intervalo entre a saída de um paciente e a entrada do próximo.
  • Cancelamentos e suspensões: sala reservada que não chega a ser usada.
  • Agenda mal dimensionada: durações previstas que não refletem a realidade.
  • Recuperação lotada: o paciente está pronto para sair da sala, mas não há onde acomodá-lo.

Os pontos se conectam. Um atraso na primeira cirurgia desloca o dia inteiro, e uma troca lenta aumenta o risco de cancelar o último caso.

Os indicadores que a gestão deve acompanhar

Uma pesquisa com 158 enfermeiros associados à SOBECC, feita em 2018 e 2019, mostrou quais indicadores são mais acompanhados nos hospitais brasileiros: cancelamentos (81,6%), ocupação das salas por mês (69,6%) e atraso de cirurgia (35,5%).

Os autores observam que os indicadores foram apresentados pelo título, e não pela fórmula, o que pode ter gerado interpretações diferentes. A lição vale para a gestão: o indicador só funciona quando a fórmula está escrita.

Cinco medidas costumam bastar para começar. As definições abaixo são comuns, e cada hospital deve registrar a sua.

  1. Início pontual da primeira cirurgia. Percentual de primeiros casos que começam no horário.
  2. Tempo de troca. Do momento em que o paciente sai da sala até a entrada do próximo.
  3. Cancelamentos por causa. Separe causas clínicas, administrativas e de preparo, pois a solução de cada uma é diferente.
  4. Taxa de ocupação. Tempo de sala em uso dividido pelo tempo disponível.
  5. Permanência na recuperação pós-anestésica. Mostra se a saída da sala está sendo travada.

Para dar uma ordem de grandeza: uma análise retrospectiva de um hospital terciário, com dados de 2015, encontrou tempo médio de troca de 37,18 minutos nas salas cirúrgicas e atraso médio de 10,58 minutos na primeira cirurgia.

Não são metas. São um lembrete de que o que se mede em minutos se acumula em horas.

Simule o efeito de pequenas melhorias

A conta abaixo usa os números do seu centro cirúrgico. Ajuste os controles e veja quantas cirurgias a mais, por semana, cabem na mesma estrutura.

Módulo interativo

Simulador de capacidade

Seu centro cirúrgico hoje
Melhoria simulada

Cálculo ilustrativo, com 5 dias úteis por semana e demanda suficiente para ocupar o tempo liberado. Não é previsão: o resultado real depende da agenda, do perfil cirúrgico e da capacidade de recuperação.

O que a anestesia influencia no fluxo

A anestesia está presente em quase todos os pontos de perda do tempo. Quatro frentes costumam fazer diferença.

  • Avaliação pré-anestésica antecipada, que identifica pendências clínicas antes do dia da cirurgia.
  • Escala previsível, que garante anestesiologista na sala no horário.
  • Preparo e comunicação na troca, com a sala pronta e a equipe alinhada com a cirurgia seguinte.
  • Critérios claros de alta da recuperação, para que a saída da sala não fique travada.

Sobre a avaliação antecipada, a evidência pede cautela. Uma revisão sistemática com 7 estudos e 77.411 pacientes encontrou redução de cancelamentos em quatro deles. Em um, os cancelamentos por motivo clínico caíram de 2,0% para 0,9%.

A mesma revisão não encontrou melhora no tempo de entrada na sala, e os próprios autores consideram a evidência insuficiente, com risco de viés na maioria dos estudos.

A leitura prática: a avaliação antecipada tende a ajudar a evitar cancelamentos por causa clínica, mas não resolve sozinha os atrasos. O fluxo depende do conjunto.

Cinco perguntas ao parceiro de anestesia

Estas perguntas mostram se o parceiro trata o fluxo como parte do trabalho.

  1. Como é garantida a presença da equipe no horário da primeira cirurgia? Peça a escala-padrão e a regra de cobertura.
  2. Que indicadores de fluxo o grupo acompanha? Início pontual, cancelamentos por causa anestésica e tempo na recuperação.
  3. Como a equipe participa da troca de sala? A resposta revela se há rotina ou improviso.
  4. Há avaliação pré-anestésica antes do dia da cirurgia? Para quais casos e com qual prazo?
  5. Com que frequência os dados são apresentados à diretoria? Relatório periódico, com as fórmulas descritas.

Perguntas frequentes

O que é throughput em um centro cirúrgico?
É o volume de pacientes operados, com segurança e dentro do horário, em determinado período. Mede o que a estrutura entrega, e não apenas quanto tempo as salas ficam ocupadas.

Qual é o tempo ideal de troca de sala?
Não há um número universal. Depende do tipo de cirurgia, do material e da equipe. O melhor ponto de partida é medir o tempo atual e acompanhar a tendência.

Como a anestesia influencia o giro de sala?
Pela pontualidade da equipe, pelo preparo da sala, pela avaliação pré-anestésica e pelos critérios de alta da recuperação. O efeito depende da rotina e dos indicadores de cada serviço.

Aumentar o giro compromete a segurança?
Não deve. O objetivo é eliminar espera e retrabalho, e não encurtar etapas assistenciais. Protocolos como o checklist cirúrgico continuam inegociáveis.

Na prática AMD

Há mais de 50 anos, a AMD Anestesia atua em São Paulo com equipe de mais de 70 anestesiologistas.

Escalas, equipe fixa e indicadores fazem parte do modelo de trabalho apresentado aos hospitais parceiros, e a AMD é certificada no nível Diamond do Qmentum International desde 2019.

Para a diretoria, isso significa uma anestesia que conversa com o centro cirúrgico em dados: pontualidade, cancelamentos e tempo de recuperação.

O próximo passo

Ganhar capacidade raramente exige uma grande obra. Costuma exigir medir, definir fórmulas e atacar, um a um, os minutos que se perdem.

O simulador acima é um bom começo de conversa: leve os números do seu hospital para a próxima reunião do centro cirúrgico.

Quer entender como o parceiro de anestesia entra nessa conta? Leia o guia de gestão anestésica externa e conheça a AMD Anestesia.

Verificado por AMD AnestesiaConteúdo verificado pela AMD Anestesia. Informativo; não substitui avaliação clínica individual.

Fontes

  1. Gama BP, Bohomol E. Rev SOBECC, 2020;25(3):143-150. sobecc.emnuvens.com.br
  2. Estudo retrospectivo de eficiência em salas cirúrgicas e anestesia fora do centro cirúrgico (hospital terciário, 2015). link.springer.com
  3. Revisão sistemática sobre clínicas de avaliação pré-anestésica. BMJ Open, 2022;12(5):e054206. bmjopen.bmj.com
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