- Throughput é quantos pacientes passam pelas salas, com segurança e no horário, em um período. É diferente de ocupação: sala ocupada não é, necessariamente, sala produtiva.
- O tempo se perde em cinco pontos: início da primeira cirurgia, troca de sala, cancelamentos, agenda mal dimensionada e recuperação lotada.
- Poucos minutos poupados por cirurgia somam horas por mês. O simulador do artigo mostra a conta com os números do seu hospital.
São 7h40. A primeira sala do dia continua vazia, e a agenda tem cirurgias demais para o tempo que sobra.
Ninguém errou de propósito. O paciente chegou depois, um exame não estava no prontuário, a sala esperava um material.
No fim do dia, o hospital contará as cirurgias realizadas. Quase nunca contará o tempo que escorreu pelo caminho.
É esse tempo que o conceito de throughput ajuda a enxergar. Este texto explica o conceito, mostra onde o tempo se perde, quais indicadores acompanhar e traz um simulador para a diretoria calcular o efeito de pequenas melhorias.
O que é throughput no centro cirúrgico
Throughput é o volume que passa por um sistema em determinado período. No centro cirúrgico, é quantos pacientes são operados com segurança e dentro do horário planejado.
Não é o mesmo que ocupação. Uma sala pode parecer ocupada o dia inteiro e produzir pouco, se parte do tempo é espera, atraso ou troca lenta.
Para a diretoria, a pergunta útil é esta: quanto da capacidade que o hospital já tem vira cirurgia realizada?
Responder a ela costuma ser mais barato do que abrir uma nova sala.
Onde o tempo se perde
Na maior parte dos centros cirúrgicos, as perdas aparecem em cinco pontos.
- Início da primeira cirurgia: o atraso da manhã empurra todos os casos seguintes.
- Troca de sala: o intervalo entre a saída de um paciente e a entrada do próximo.
- Cancelamentos e suspensões: sala reservada que não chega a ser usada.
- Agenda mal dimensionada: durações previstas que não refletem a realidade.
- Recuperação lotada: o paciente está pronto para sair da sala, mas não há onde acomodá-lo.
Os pontos se conectam. Um atraso na primeira cirurgia desloca o dia inteiro, e uma troca lenta aumenta o risco de cancelar o último caso.
Os indicadores que a gestão deve acompanhar
Uma pesquisa com 158 enfermeiros associados à SOBECC, feita em 2018 e 2019, mostrou quais indicadores são mais acompanhados nos hospitais brasileiros: cancelamentos (81,6%), ocupação das salas por mês (69,6%) e atraso de cirurgia (35,5%).
Os autores observam que os indicadores foram apresentados pelo título, e não pela fórmula, o que pode ter gerado interpretações diferentes. A lição vale para a gestão: o indicador só funciona quando a fórmula está escrita.
Cinco medidas costumam bastar para começar. As definições abaixo são comuns, e cada hospital deve registrar a sua.
- Início pontual da primeira cirurgia. Percentual de primeiros casos que começam no horário.
- Tempo de troca. Do momento em que o paciente sai da sala até a entrada do próximo.
- Cancelamentos por causa. Separe causas clínicas, administrativas e de preparo, pois a solução de cada uma é diferente.
- Taxa de ocupação. Tempo de sala em uso dividido pelo tempo disponível.
- Permanência na recuperação pós-anestésica. Mostra se a saída da sala está sendo travada.
Para dar uma ordem de grandeza: uma análise retrospectiva de um hospital terciário, com dados de 2015, encontrou tempo médio de troca de 37,18 minutos nas salas cirúrgicas e atraso médio de 10,58 minutos na primeira cirurgia.
Não são metas. São um lembrete de que o que se mede em minutos se acumula em horas.
Simule o efeito de pequenas melhorias
A conta abaixo usa os números do seu centro cirúrgico. Ajuste os controles e veja quantas cirurgias a mais, por semana, cabem na mesma estrutura.
Simulador de capacidade
Cálculo ilustrativo, com 5 dias úteis por semana e demanda suficiente para ocupar o tempo liberado. Não é previsão: o resultado real depende da agenda, do perfil cirúrgico e da capacidade de recuperação.
O que a anestesia influencia no fluxo
A anestesia está presente em quase todos os pontos de perda do tempo. Quatro frentes costumam fazer diferença.
- Avaliação pré-anestésica antecipada, que identifica pendências clínicas antes do dia da cirurgia.
- Escala previsível, que garante anestesiologista na sala no horário.
- Preparo e comunicação na troca, com a sala pronta e a equipe alinhada com a cirurgia seguinte.
- Critérios claros de alta da recuperação, para que a saída da sala não fique travada.
Sobre a avaliação antecipada, a evidência pede cautela. Uma revisão sistemática com 7 estudos e 77.411 pacientes encontrou redução de cancelamentos em quatro deles. Em um, os cancelamentos por motivo clínico caíram de 2,0% para 0,9%.
A mesma revisão não encontrou melhora no tempo de entrada na sala, e os próprios autores consideram a evidência insuficiente, com risco de viés na maioria dos estudos.
A leitura prática: a avaliação antecipada tende a ajudar a evitar cancelamentos por causa clínica, mas não resolve sozinha os atrasos. O fluxo depende do conjunto.
Cinco perguntas ao parceiro de anestesia
Estas perguntas mostram se o parceiro trata o fluxo como parte do trabalho.
- Como é garantida a presença da equipe no horário da primeira cirurgia? Peça a escala-padrão e a regra de cobertura.
- Que indicadores de fluxo o grupo acompanha? Início pontual, cancelamentos por causa anestésica e tempo na recuperação.
- Como a equipe participa da troca de sala? A resposta revela se há rotina ou improviso.
- Há avaliação pré-anestésica antes do dia da cirurgia? Para quais casos e com qual prazo?
- Com que frequência os dados são apresentados à diretoria? Relatório periódico, com as fórmulas descritas.
1. Defina o tempo disponível. Por exemplo, o horário em que a sala deveria estar em uso, por dia.
2. Some o tempo em uso. Do início do preparo do paciente ao fim da cirurgia e da limpeza, conforme a regra que o hospital adotar.
3. Divida. Tempo em uso dividido pelo tempo disponível. Escreva a fórmula, pois outras definições dão resultados diferentes.
Perguntas frequentes
O que é throughput em um centro cirúrgico?
É o volume de pacientes operados, com segurança e dentro do horário, em determinado período. Mede o que a estrutura entrega, e não apenas quanto tempo as salas ficam ocupadas.
Qual é o tempo ideal de troca de sala?
Não há um número universal. Depende do tipo de cirurgia, do material e da equipe. O melhor ponto de partida é medir o tempo atual e acompanhar a tendência.
Como a anestesia influencia o giro de sala?
Pela pontualidade da equipe, pelo preparo da sala, pela avaliação pré-anestésica e pelos critérios de alta da recuperação. O efeito depende da rotina e dos indicadores de cada serviço.
Aumentar o giro compromete a segurança?
Não deve. O objetivo é eliminar espera e retrabalho, e não encurtar etapas assistenciais. Protocolos como o checklist cirúrgico continuam inegociáveis.
Há mais de 50 anos, a AMD Anestesia atua em São Paulo com equipe de mais de 70 anestesiologistas.
Escalas, equipe fixa e indicadores fazem parte do modelo de trabalho apresentado aos hospitais parceiros, e a AMD é certificada no nível Diamond do Qmentum International desde 2019.
Para a diretoria, isso significa uma anestesia que conversa com o centro cirúrgico em dados: pontualidade, cancelamentos e tempo de recuperação.
O próximo passo
Ganhar capacidade raramente exige uma grande obra. Costuma exigir medir, definir fórmulas e atacar, um a um, os minutos que se perdem.
O simulador acima é um bom começo de conversa: leve os números do seu hospital para a próxima reunião do centro cirúrgico.
Quer entender como o parceiro de anestesia entra nessa conta? Leia o guia de gestão anestésica externa e conheça a AMD Anestesia.
Fontes
- Gama BP, Bohomol E. Rev SOBECC, 2020;25(3):143-150. sobecc.emnuvens.com.br
- Estudo retrospectivo de eficiência em salas cirúrgicas e anestesia fora do centro cirúrgico (hospital terciário, 2015). link.springer.com
- Revisão sistemática sobre clínicas de avaliação pré-anestésica. BMJ Open, 2022;12(5):e054206. bmjopen.bmj.com
